quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Manhã de Outubro


Ultimamente os pormenores da vida têm passado por mim de forma bastante intensa e notável.


Espero que gostem do meu novo texto:



É uma nova manhã de Outubro, estou em frente à porta principal de minha casa. Aquela que se dirige ao meu quintal e que se prolonga num caminho de pedra que termina num pequeno portão – a entrada para o mundo exterior (ou a saída, se estivermos do lado de fora).

 Agora, encontro-me aqui, em pé, a preparar-me para me deparar com o outro lado.

Esta porta é o que separa a não mutável proteção das paredes de minha casa, com a desconhecida, em constante mudança e espantosa vida lá fora – o que me espera, hoje?

 O estore elétrico está a subir – o som compassado do motor une-se a outro, um som irregular, sem a mão do homem, um som belo e estranhamente familiar - chuva?

 São 7 da manhã, o céu ainda está escuro como o breu, e chove, chove, chove – uma chuva bela, mas em nada similar à chuva da noite. Os gatos também se abrigam, mas ao invés de não se ouvirem, ronronam felizes por poder observar a queda destes cristais do céu sem se molharem - fecho os olhos, e o ar traz-me o som de dezenas de ronronares sob a melodia da chuva – como nos consideramos ser malvados, se os céus nos oferecem tamanha riqueza?

 Ainda me encontro no meu quintal – como será a emoção de sair dele? Sim, durante 16 anos, cada saída me proporcionou uma diferente sensação e experiência.

  Ponho um pé no passeio da estrada, e depois o outro – sou saudada com uma rajada de vento, forte e fria o suficiente para dançar um slow com os meus cabelos soltos e me porem com pele de galinha.

 Na estrada formou-se um pequeno riacho de água da chuva que me indica o caminho para a paragem, como se de setas de tratasse.

  O cão da casa do lado, habitualmente com as orelhas em pé a vigiar as redondezas encontra-se refugiado na sua casota, sem vontade de ser guarda, hoje.

  As formigas sofrem um dilúvio que lhes destrói o lar – já repararam nas constantes inundações a que as formigas e os outros insetos estão sujeitos?

 As rosas da vizinha agradecem o alimento, tornando-se altivas e majestosas, debaixo da chuva.

  A chuva e o vento aumentam de repente, desafiando o meu chapéu aberto numa luta molhada. A única mão que uso para agarrar o chapéu aperta o cabo com toda a força, tentando que este não lhe escape por entre os dedos. Os nódulos dos dedos doem-me, e, apesar de conseguir manter-me debaixo do chapéu-de-chuva, nem tudo resiste, e as gotinhas levam a sua avante – molham-me a mochila da escola (sorte ser impermeável) e as pernas até aos joelhos (mais propriamente as calças) e resfria-me ainda mais – por debaixo da minha roupa grossa encontra-se uma pele a tremer.

 Um limoeiro atravessa-se no meu caminho – os limões atiram-se para o chão, imitando a chuva, e o seu cheiro mistura-se com a minha coleção de sensações olfativas diárias (limão e chuva – deveras uma agradável combinação).

  Neste momento, encontro-me na paragem a tentar retirar o excesso de água do meu chapéu – as gotas soltam-se do tecido e marcam a pedra do passeio – são as testemunhas de toda a ação na qual participei nestes completos dois minutos.

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